Lagosta

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Aos 23 anos ele foi diagnosticado com esse negócio de alienismo social por um ruivo meio chato que aparecia como agregado de alguém nas festas. Demorou pra começar a tratar, parte por preguiça, parte por gostar da sensação geladinha e do silêncio. Mudou-se para um casebre nos fundos do sítio que seu tio ganhou, mas nunca usou, dizia que estava esperando o governo comprar.

Com o tempo percebi que só consigo sentir as coisas através dos outros. Um ser vicariante, na biologia, é aquele que consegue suprir as necessidades do outro, ou algo assim. Convido amigos pra coisas que sei que eles vão gostar, pra experienciar aquela felicidade. Apresento músicas pra absorver a reação como se fosse a primeira vez que ouvi. Vou em estreias de grandes franquias de cinema para sentir as emoções por tabela. Os aplausos, as lágrimas, as risadas. Ouço podcasts sobre temas complicados pra “exercitar” minha empatia, se é que isso é possível. Isso deve ter surgido de um medo antigo de acabar sendo um mal pra sociedade, mas hoje em dia percebi que sou meio inofensivo.

Ele achava que saberia se cuidar depois de anos vendo vídeos esporádicos de sobrevivência, carpintaria e construção. Passou frio, fome. Perdeu 5 das 7 perspectivas que tinha guardado. Alguns vizinhos perceberam a movimentação e acabaram ajudando a reformar a casa e indicando uns pontos bons para pescar. Ele adorava pescar, mas odiava pensar muito sobre isso. Sobre os olhos dos peixes.

Durante muito tempo mantive o ideal que só conseguirei ser feliz se botar as necessidades de outra pessoa à frente das minhas. Viver por alguém, ser o ombro, o banquinho, o canal. Sei que isso é ruim, mas não de todo ruim. É ótimo servir de exemplo, guiar. O problema é ser ingrediente de retrospectivas quando já é tarde demais.

O alienista melhorou muito com o tempo. Sabia cuidar de si, de seis galinhas, uma gata e uns 30m² de plantas. Se sentia melhor quando separava ovos, couves e uns 2 entalhes pra levar num mercadinho próximo. Não pensava muito sobre o que era feito com aquilo, mas tudo bem.

Tenho consciência que esse estilo de vida não é muito saudável, mas não quero acabar com ele. Gosto da importância que dou a pessoas relevantes. Um coprotagonismo meio estoico. A melhor companhia que você pode ter, se nada fugir do controle e acabar num inferno de ansiedade social. O primeiro passo é admitir, né? Sou viciado em sentir através de quem me importo.

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